Violência nos Estádios

Introdução

O futebol como desporto é considerado por muitos a grande paixão popular e caracterizado pela crítica desportiva como o maior fenómeno social dos últimos anos. Essa afirmação é fácil de ser observada ao se analisar o amor que os torcedores têm pelo seu clube. Porém, há certo tempo que uma inquietação vem incomodando o dia-a-dia de todo adepto apaixonado por futebol: o caso da violência presente cada dia mais nos estádios.

A versão mais recorrente quanto à origem do termo Hooligan refere um temido bandoleiro e salteador chamado Hooley que, chefiando o seu bando, aterrorizava os camponeses irlandeses nos anos finais do século XIX (Cancio,1990).

Nas análises de Paim e Strez, no momento em que uma pessoa participa de uma torcida organizada, ela está sendo constituída de situações de expansão, várias emoções, muitas vezes reprimidas pelo meio social do quotidiano. Desta forma, é diante da torcida que essa pessoa demonstra sua identidade e começa a manifestar e agir de maneira que não faria isoladamente, colocando para fora todo sentimento de impotência e frustração pessoal. Sobre esse aspeto, Filho observou que, tomado como manifestação cultural, o futebol apresenta dimensões positivas ligadas ao espetáculo e à motivação e alegria de várias pessoas. Porém, esse autor relatou que o futebol também tem trazido a violência, em que parte integrante dos noticiários desportivos vem mostrando que, tanto no campo, entre os jogadores, quanto nas bancadas, entre os adeptos, vem ocorrendo um índice muito alto de violência.

Uma das formas mais cruéis de violência no futebol, presente tanto no campo quanto nas bancadas, é o racismo, que por sinal existe desde os primórdios do futebol, quando somente brancos e ricos aristocratas podiam praticar esse desporto. Dando ênfase a essa afirmação, Figueiredo relatou que, na década de 1920, o futebol era considerado desporto de elite, praticado somente pela classe dominante; negros e mestiços não poderiam sequer fazer parte dos quadros de grandes clubes. Os atletas negros e mestiços participavam somente em alguns clubes do subúrbio, como o Vasco da Gama, que, segundo o citado autor, estava preparando sua equipa para desestabilizar a hegemonia das classes dominantes. Tal fato ocorreu em 1923, quando o Vasco disputava pela primeira vez o campeonato carioca da primeira divisão, sagrando-se campeão com uma equipa composta por jogadores negros, mulatos e brancos de origem humilde. Silva e Votre relataram que os media têm influência muito grande no caso do racismo. Segundo estes autores, toda vez que o Brasil não consegue obter sucessos em competições importantes, todos tendem a procurar um culpado para justificar a derrota, e geralmente, através dos media, a culpa é atribuída a jogadores negros. Entretanto, para Leitão e Tubino, a agressividade está presente em nossas vidas desde as origens do mundo e da nossa história. Acreditam que a violência constitui um componente essencial da vida humana e, ainda, está inscrita no coração do homem e no ser do mundo. 

Por sua vez, Daolio relatou que a violência exagerada dos adeptos não poderia ser entendida de forma simplista, uma vez que está presente a manifestação de alguns agressores, pois segundo esse mesmo autor, é dessa forma que alguns jornalistas tratam o assunto. Ainda de acordo com esse autor, essa violência constitui a expressão da sociedade brasileira por muitas vezes reprimidas em outras ocasiões. Nesse sentido, eis a seguinte questão: o que vem acontecendo com a sociedade brasileira ultimamente que tem gerado tantas expressões de violência nos estádios de futebol?

Dentro desse contexto, na busca de identificar e analisar os motivos que estejam contribuindo para a situação do florescimento da violência, Machado relatou que para alguns estudiosos são instintivas as tendências agressivas. Já para outros a agressividade é resultante de determinada situação, em que a reação agressiva ocorre em relação à frustração e diante de uma tentativa de vencer obstáculos na busca do prazer. Ainda segundo esse autor, a violência que vem acontecendo nos meios desportivos acaba atingindo a popularidade do desporto. Dessa forma, quando há um torcedor se expressando de forma ilimitável, toda a sua agressividade acumulada pode ter sido originada não da situação do jogo, mas, sim, do meio social. Perrusi analisou a agressividade por dois meios: violência no desporto ou violência do desporto. Para ele, se há “violência do desporto “, seria alegar que a violência é intrínseca, ou seja, seria constituinte do conteúdo desportivo do próprio futebol, mas se há “violência no desporto “, o motivo seria extrínseco, de fora para dentro, trazido de outro meio, seja por crise econômica, seja por racismo ou qualquer outra coisa.

Foi, pois no contexto futebolístico britânico que o problema do Hooliganismo assumiu maior visibilidade e suscitou um maior número de investigações no domínio das Ciências Socais. Nas últimas três décadas do século XIX e até à 1ª Guerra, o futebol foi sobretudo acolhido como um jogo e espetáculo por parte das altas classes sociais de vários países (Kindersley, 2003), acabando posteriormente por se difundir às médias e baixas classes sociais. Foi, pois no contexto futebolístico britânico que o problema do Hooliganismo assumiu maior visibilidade e suscitou um maior número de investigações no domínio das Ciências Socais. Nas últimas três décadas do século XIX e até à 1ª Guerra, o futebol foi sobretudo acolhido como um jogo e espetáculo por parte das altas classes sociais de vários países (Kindersley, 2003), acabando posteriormente por se difundir às médias e baixas classes sociais.

A violência do ponto de vista intrínseco

Para Werthein, o futebol, além de mobilizador das massas, é modelador de comportamentos e de opiniões. Nesse sentido, esse autor relatou que é inconcebível o que aconteceu na final do Campeonato Carioca de 2004, quando jogadores, técnicos, dirigentes e árbitros se agrediram fisicamente, além de outros profissionais, que proporcionaram cenas que desprezavam praticamente todas as regras de convívio e tolerância. Isso somado ao fato de que o jogo estava sido visto por milhares de pessoas pela televisão e por 80 mil adeptos que estavam no estádio, e os adeptos são, sobretudo, apreciadores do futebol como um desporto relacionado à arte, à cidadania e à construção de uma cultura para a paz. Esse mesmo autor relatou, ainda, que tais torcedores deveriam exigir que seus ídolos passassem a adotar uma conduta de tolerância, cooperação e responsabilidade em campo. Sobre esse aspeto, na opinião de Leitão e Tubino, devido à violência que tem sido exercida pelos jogadores de futebol, muitas vezes a técnica e a tática desportiva acabam sendo desprezadas. Com isso, o interesse pela agressividade é bastante sintomático. Para esses autores, a exigência não sobressai na técnica, ela gravita na possibilidade da fuga da realidade. Assim, à medida que as agressões vêm ocorrendo, os torcedores acabam liberando seus impulsos.

A violência do ponto de vista extrínseco

É sabido de que um dos principais fatores que contribuem para a violência no futebol seria a presença das claques organizadas, que muitas vezes vão ao estádio para protagonizar cenas de violência, em vez de apoiarem seu clube a sair vitorioso da partida. Esses torcedores são identificados pela sociedade como vândalos, que provocam momentos de terror em todos os expectadores que vão ao estádio para apoiarem seu clube de coração. Em seus estudos, Pimenta relatou que a mudança de comportamento do adepto nas bancadas modificou-se consideravelmente dos anos de 1980 para o momento atual. Para esse autor, isso aconteceu devido ao surgimento de configurações organizativas com característica burocrática/militar, fenómeno esse essencialmente urbano, que criou uma nova categoria de adepto, ou seja, “adepto organizado”. Outro fator que vem contribuindo para a ascensão da violência nas bancadas seriam os meios de comunicação, devido ao grande sensacionalismo com que vinculam suas informações e produzem a impressão de o fato ter proporções muito maiores do que realmente aconteceu. Em sua pesquisa, Rech relatou a existência de outro exemplo de agressividade: os comportamentos por toda a cidade para comemorar vitórias em campeonatos e adeptos acabam jogando objetos em atletas e árbitros, além de ser encontradas armas em jogos de futebol que pertenciam as claques organizadas. Fatos como esses acabam comprometendo o espetáculo e, ainda, colocando em risco a vida de muitas pessoas. 

Nos estudos de Perrusi foram encontradas três posições teóricas que definem o futebol como uma instituição que sublima a violência, através da própria violência simbólica, afirmando que o futebol seria uma “guerra feita por outros meios” e, ainda, teorias que continuam a tradição da psicologia social de criminólogos e psiquiatras do final do séc XIX, que julgam o futebol como degradação social.

A primeira posição teórica é de que o futebol é “pão e circo” e significa nesse sentido, “apaziguamento das massas”. Segundo aquele autor o futebol enquanto “pão e circo” seria uma espécie de ópio que iria anestesiar os adeptos, desviando-os, assim, das mazelas quotidianas e de uma consciência política da realidade. Enquanto “pão e circo”, o futebol iria fazer parte das várias formas de “violência simbólica”.

A segunda posição teórica relatada pelo citado autor seria a teoria da “purificação” ou da “sublimação” de algumas potencialidades humanas, por exemplo, a violência. Dessa forma, foram divididos em dois grupos principais: as teorias “terapêuticas” e as teorias “perpetuadoras”. No primeiro caso, as teorias “terapêuticas” seriam otimistas, o que implica que o adepto sairia do jogo, pelo menos durante certo período, sublimado da violência, enquanto as teorias “perpetuadoras” seriam pessimistas, pois não seria garantido que o adepto sairia do jogo purificado da violência, sendo o mínimo que se garanta a realização simbólica da violência potencial ou real do adepto. Tenta-se prevenir, dessa forma, o risco da explosão concreta da violência, o que poderia colocar em risco o meio social.  

 A terceira posição teórica citada pelo mencionado autor é considerada a mais preconceituosa em relação ao futebol e atualmente a mais popular talvez pelo decréscimo em relação aos estádios. Essa posição teórica é conhecida como “demonização” da multidão. Seria como se o indivíduo, por estar na multidão, perdesse sua individualidade e sua identidade, pois seria vítima de uma fusão entre sua personalidade e os adeptos. O resultado desse processo é aterrador: o indivíduo perde sua razão, afasta da “civilização” e acaba se inundando de “instintos básicos”, principalmente os mais pavorosos, a começar pela violência.

Pimenta relatou que as causas da violência não podem ser atribuídas exclusivamente às questões sociais ou a fatores estritamente económicos. Esse autor ressaltou que, na composição das claques organizadas, existem uma pluralidade de “agentes” que assumem diversos papéis na sociedade, como: estudantes, pais de família, mulheres e jovens, além de pessoas que respondem aos processos criminais e viciados em drogas.  Todo ser humano é movido pela emoção, e essa paixão do povo brasileiro pelo futebol acaba mostrando uma explosão de alegria e, ou, tristeza, dependendo do resultado da partida e, a forma de expressar seus sentimentos tem sido, principalmente pelas claques organizadas, a agressão física à torcida adversária e até mesmo ao torcedor do mesmo clube, fato esse também muito observado nos jogos de futebol.

Pimenta relatou quais seriam as principais causas da violência entre as torcidas organizadas. A saber: má distribuição de renda; exploração dos dirigentes esportivos e líderes de torcida; efeitos da criminalidade; ausência, nos jovens de expetativas de futuro; ausência do Estado, enquanto mentor de políticas públicas de formação social; efeitos da pobreza; entre outros.  A violência nos estádios de futebol, deveria ser tratada com mais responsabilidade pelas autoridades, uma vez que o futebol é o desporto mais praticado pela sociedade brasileira e considerado, por todo o mundo, como um grande espetáculo desportivo, sendo o Brasil conhecido, inclusive, como o país do futebol. A consciência das autoridades sobre a gravidade do assunto seria o primeiro passo para que os torcedores voltem a ter segurança nos estádios.

Conclusão

Diante dos artigos analisados, pode-se constatar que infelizmente, nos dias atuais, estamos vivendo um verdadeiro retrocesso no que já foi chamado de futebol-arte. Naquela época, o futebol só poderia ser praticado pela elite aristocrata, pois quando negros e pobres participavam de um jogo, eles poderiam levar pontapés que nada aconteceria, permitindo assim o uso da agressão. Considerando, como fato concreto, que o futebol mobiliza multidões, é motivante, é uma paixão nacional, resgatar esse desporto como instrumento educativo é função da escola e, consequentemente, dos educadores. E, com certeza, a infância seria o melhor momento para que os verdadeiros valores da vida sejam identificados e valorizados por todos. A violência nos estádios de futebol, seja do ponto de vista intrínseco ou extrínseco passou a ser considerada um problema social, uma vez que tomou uma proporção tão grande e um grande incómodo aos interesses em torno do evento desportivo.

O futebol europeu deve ser encarado com mais profissionalismo pelas suas instituições organizativas, uma vez que milhões de pessoas estão envolvidas e os jogadores, como protagonistas desse espetáculo devem ter a consciência de que exercem importância muito grande na vida de várias crianças, pois são considerados os seus ídolos. Dentro do objetivo proposto neste artigo, pode-se constatar que: tanto a violência do ponto de vista intrínseco quanto a do extrínseco estão presentes no futebol, porém a violência extrínseca, originada de fora para dentro e provocada principalmente pelas claques organizadas, vem causando preocupação maior, uma vez que a quantidade de pessoas envolvidas é muito grande, dificultando o trabalho da polícia. Não restam dúvidas de que a violência está caracterizada como parte intensa das camadas de toda a sociedade moderna e de que as causas políticas e sociais têm suas parcelas de culpa por tudo que vem ocorrendo nos estádios de futebol. Com isso, cabe às autoridades públicas e a toda a sociedade contribuírem para manter o controlo dentro dos estádios e também proporcionar o deslocamento dos jovens adeptos para outros movimentos de lazer. 

 

.

 

 

 

 

 

Anúncios